Mais do que reunir bandas e artistas em um mesmo evento, o Culturama nasceu de uma inquietação sobre a própria forma como a produção cultural independente passou a se relacionar com o público.
Entrevistei Eric (foto de capa), vocalista da INTRA que contou para o Ruído Alternativo a origem do projeto, desafios, criação de comunidade, futuro e muito mais.
Idealizado por integrantes da INTRA, entre eles Eric, Jera e Henrique, o projeto surgiu a partir da percepção de que a cena de Salvador havia mudado profundamente nos últimos anos, especialmente com a migração das relações entre artistas e público para as redes sociais e plataformas digitais.
Quando a INTRA decidiu voltar a tocar, o grupo encontrou um cenário diferente daquele que havia conhecido anteriormente. Se antes bandas, casas de show e público conviviam de maneira mais próxima, a nova realidade estava cada vez mais atravessada por algoritmos, serviços de streaming e pela necessidade de produzir conteúdo constantemente para conseguir alcançar pessoas.
Foi justamente nesse contexto que surgiu a vontade de criar novamente espaços de encontro presencial. A proposta era simples, mas abrangente: fazer com que as pessoas saíssem de casa para conhecer uma banda, descobrir um artista, conversar com quem produz cultura na própria cidade e, principalmente, recuperar um pouco da sensação de comunidade que existia em outros momentos da cena independente.
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| Artistas locais levam seus trabalhos para o Culturama - Foto: Ruído Alternativo / Raphael Maiffre |
A percepção, no entanto, não se limitava à música. Segundo Eric, artistas visuais também passaram a enfrentar uma relação semelhante com o ambiente digital, muitas vezes precisando produzir cada vez mais conteúdo para alimentar plataformas, em vez de concentrar sua energia na própria produção artística.
"O Culturama! surge muito dessa inquietação. Da vontade de criar um espaço físico onde artistas possam mostrar o que estão produzindo e onde Salvador possa conhecer quem está fazendo arte agora, dentro da própria cidade".
Ao longo das edições, o projeto também ajudou a revelar uma percepção sobre a produção independente de Salvador. Para Eric, existe uma cena artística underground bastante rica na cidade, mas parte dela perdeu força enquanto comunidade, especialmente fora dos circuitos festivos mais consolidados e das linguagens que tradicionalmente conseguem mais espaço de circulação.
A transformação da maneira como os artistas divulgam seus trabalhos contribuiu para isso. Com cada vez mais gente concentrando esforços no ambiente digital, encontros, trocas e relações presenciais acabaram perdendo espaço.
Esse cenário também produz um desafio para os artistas mais jovens, que nem sempre encontram referências locais próximas ou pessoas que mostrem que é possível construir uma trajetória artística em Salvador.
Ao mesmo tempo, existe uma geração de profissionais mais experientes, carregando anos de produção, conhecimento e histórias, que também enfrenta dificuldades diante da lógica atual de circulação digital e produção constante de conteúdo.
O Culturama passou a funcionar justamente como uma ponte entre essas gerações.
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| A banda Andar de Cima se apresentando em uma das edições de 2026 - Foto: Ruído Alternativo / Raphael Maiffre |
A proposta é aproximar quem está começando de quem já possui uma trajetória consolidada, permitindo que os mais jovens encontrem referências e que os artistas mais experientes também sejam atravessados pelas novas linguagens, estéticas e inquietações.
"Estamos falando de comunidade usando a arte para se conectar", explica Eric. Para ele, a arte também funciona como uma forma de registrar o tempo presente, a estética, as experiências e a maneira como diferentes pessoas vivem Salvador.
A intenção, portanto, é contribuir para que os artistas consigam desenvolver suas trajetórias dentro da própria cidade, fortalecendo uma cena capaz de criar público e oportunidades sem que o reconhecimento precise necessariamente acontecer longe daqui.
Quando diferentes linguagens ocupam o mesmo espaço
Uma das características mais marcantes do Culturama é justamente não estabelecer uma separação rígida entre música e outras manifestações artísticas. Artistas visuais, músicos e público dividem o mesmo ambiente porque, para os idealizadores, existe uma origem comum entre essas diferentes formas de expressão.
A música, a pintura, a fotografia, o vídeo, a dança, a escrita e a poesia podem utilizar linguagens completamente diferentes, mas partem muitas vezes da mesma necessidade: pessoas inquietas e observadoras tentando registrar, interpretar ou expressar aquilo que vivem.
Por isso, o Culturama procura reunir não necessariamente pessoas que trabalham com a mesma linguagem, mas pessoas criativas que têm algo a dizer.
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| Evento reúne artistas e um público ávido por consumir a cena alternativa da cidade - Foto: Ruído Alternativo / Raphael Maiffre |
Essa característica também muda a relação do público com o evento. Em vez de simplesmente assistir a uma apresentação, quem vai ao Culturama encontra a possibilidade de conversar com os artistas, conhecer seus processos e descobrir trabalhos que talvez não encontrasse em outros lugares.
Para Eric, esse contato direto possui um valor particular.
"Poucas coisas são tão importantes para um artista quanto encontrar alguém genuinamente interessado no que ele tem para dizer".
É também por isso que o Culturama não é pensado apenas como um envento. A experiência envolve encontro, troca e contemplação da arte, seja diante de uma banda terminando um show, de uma fotografia sendo observada ou de uma conversa que começa espontaneamente entre artista e público.
O espaço para quem ainda está construindo seu público
O rock e a música autoral ocupam um espaço significativo na programação justamente porque existe uma produção intensa na cidade que nem sempre encontra lugares suficientes para circular.
A curadoria procura artistas e linguagens que estejam produzindo em Salvador, mas que muitas vezes possuem poucas oportunidades de apresentação dentro dos circuitos tradicionais. O rock autoral é um desses casos, mas a proposta não se limita ao gênero.
Reggae, indie, música alternativa e outras sonoridades autorais também fazem parte desse universo de artistas que, por não estarem necessariamente inseridos nos principais circuitos comerciais ou festivos, enfrentam dificuldades para encontrar palco e público.
Para o Culturama, esse espaço é fundamental para o desenvolvimento de uma carreira. Uma banda precisa tocar, testar músicas, construir repertório, entender a reação das pessoas e aprimorar sua apresentação. O lançamento de músicas nas plataformas digitais, por si só, não substitui a experiência de palco.
A curadoria busca, portanto, trabalhos que apresentem identidade, qualidade e uma preocupação artística com aquilo que estão produzindo, independentemente do tamanho do público que esses artistas já tenham conquistado.
Nesse processo, Jera Cravo possui papel importante por sua experiência acumulada ao longo dos anos trabalhando com produção musical e bandas. A intenção é encontrar trabalhos que tenham algo próprio para dizer e criar condições para que eles possam ser descobertos e desenvolvidos dentro da própria Salvador.
Um novo passo para o Culturama
Depois de sucessivas edições, o projeto começa a assumir uma dimensão maior para seus idealizadores. O que inicialmente nasceu como uma experiência pontual passou a ser compreendido como um movimento que o coletivo pretende manter ativo na cidade.
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| Banda INTRA na última edição realizada em Setembro de 2026 - Foto: Ruído Alternativo / Raphael Maiffre |
Grande parte dessa construção aconteceu através de trabalho voluntário, colaboração e da disposição de artistas, produtores e outras pessoas que acreditaram na importância de criar novamente esses espaços de encontro.
A próxima edição, por isso, terá um significado especial.
A ideia inicial era realizar a comemoração ainda este ano, mas a busca por espaços maiores acabou esbarrando no calendário de eventos do verão e do período que antecede o Carnaval. Com isso, os planos foram transferidos para o primeiro semestre do próximo ano, provavelmente em março, após o Carnaval.
As conversas com alguns espaços já estão avançadas e a intenção é realizar a maior edição do Culturama até agora, ampliando a programação para aproximadamente cinco bandas, além de mais artistas e novas experiências.
Mesmo com o crescimento, existe uma preocupação em preservar aquilo que está na origem do projeto: diferentes linguagens artísticas e o público ocupando o mesmo espaço.
E a celebração também deverá ganhar um registro audiovisual. Os organizadores estão preparando um documentário sobre a trajetória do Culturama, reunindo as pessoas que participaram da construção do projeto e registrando aquilo que o evento passou a representar para o coletivo.





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